NOTÍCIAS

SINDIFISCAL/MS

31/08/2016

Retomada do crescimento do PIB deve ser lenta, avaliam economistas

O PIB veio negativo pelo sexto trimestre consecutivo – conforme mostraram os dados divulgados pelo IBGE nesta quarta-feira (31), que apontam queda de 0,6% de abril a junho – mas indicadores sugerem que a economia brasileira pode já ter dado os primeiros passos, ainda que lentos e de bebê, para sair do fundo do poço. O mercado prevê que em 2017 o PIB vai crescer 1,2% após dois anos de queda. Mas economistas ouvidos pelo G1 ponderam que qualquer saída da recessão, se é que já começou, será lenta e modesta.

O economista Gesner Oliveira, sócio da GO Associados, aposta que a economia brasileira deve ter seu primeiro trimestre de crescimento entre abril de junho de 2017, ainda que não muito elevado. Para ele, qualquer setor que passe a se recuperar primeiro – seja comércio, serviços ou indústria – tende a incentivar os outros, alimentando a atividade econômica e o consumo.

Já Tharcisio Souza Santos, professor de economia da Faculdade de Administração da Faap, diz que o processo de recuperação da atividade econômica brasileira “já começou, só que lentamente”. Ainda assim, ele se diz otimista, “porque a economia brasileira tem uma grande vitalidade”.

O professor de Guilherme Mello, do Centro de Conjuntura da Unicamp, afirma que “os dados, olhados com frieza, não indicam um cenário de verdadeira recuperação”. “O máximo que se pode extrair deles é que o ritmo de queda diminuiu e tende a uma estabilização. Daí a chamar isso de recuperação é extrapolar o que os dados mostram”.

Mello destaca que a retomada do crescimento prevista para 2017 também é consequência do nível baixo atingido pela economia nos anos anteriores. “Esse crescimento previsto em torno de 1% é sobre uma base muito baixa. Em tese, quando se tem anos de recessão fica muito mais fácil crescer”.

Não há consenso entre os economistas quanto à eficácia das medidas propostas pelo governo para melhorar o resultado das contas públicas. Oliveira acredita que, se aprovadas, elas serão o gatilho para fazer a economia voltar a crescer, ao tentar reduzir um déficit previsto em R$ 140 bilhões para 2016.

Santos aponta que não há outra saída para a recuperação da confiança e do crescimento da economia a não ser o reequilíbrio das contas públicas. “As medidas (do ajuste fiscal) precisam ser aprovadas. É preciso tratar de fechar essa porta do déficit público”, defende. “Não há outra alternativa a não ser fazer o ajuste. Por mais duro que seja, tem que fazer.”

Mello pensa diferente. Para ele, um teto para o aumento de despesas públicas “pela regra Temer-Meirelles vai dar contribuição real zero” para o crescimento do PIB, referindo-se à proposta do ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, de limitar os gastos públicos de acordo com a inflação do ano anterior pelos próximos anos.

Retomada da confiança

Um dos primeiros sinais de que uma economia pode sair da recessão é a retomada dos níveis de confiança. Esse “termômetro” aponta se o consumidor está disposto a gastar e se o empresário está seguro para voltar a investir.

Santos acredita que o início da retomada da confiança dos empresários, que começou a ser verificada mais significativamente em julho, pode começar a surtir efeito na economia em meados de novembro. “Tem sempre uma defasagem. Os índices começaram a melhorar em julho, você vai ter uma ‘viradinha’ lá para novembro. O clima já está melhor desde agora, só que vai demorar para ter uma resposta.”

Já Mello aponta que a volta dos investimentos pode demorar. “A confiança é apenas uma variável, e talvez não a mais importante. A capacidade ociosa da indústria atualmente é muito grande, e vai ter que se ocupar toda antes de investir.”

Exportações não salvam a economia

Embora as exportações tenham apresentado bom desempenho, Mello, da Unicamp, questiona uma retomada do crescimento por essa via. As vendas ao exterior representaram 13% do PIB nacional em 2015, abaixo da média de 42,9% da União Européia e de 21,4% da América Latina.

“As exportações líquidas (saldo de exportações menos importações) têm garantido algum impulso para a economia e é o que explica o comportamento ligeiramente positivo da indústria nos últimos meses. Mas isso está ligado a bens de capital, e não existe recuperação da economia que comece com bens de capital”, defende o professor, acrescentando ainda que as exportações “estão prejudicadas pelo câmbio”.

Santos também cita a valorização do real como dificuldade às exportações. “O dólar caiu, o que é um sinal de que a confiança está melhorando, mas isso é uma preocupação para as exportações”, aponta. Além disso, o professor ressalva que o resultado da balança comercial “melhorou não por conta do aumento de exportações, mas pelo enxugamento das importações por causa da crise”.

De onde vai vir o crescimento?

“Não vai vir do gasto das famílias, que não reage. Não vai vir do setor externo, que reage pouco. Não vai vir dos gastos do governo, que estão travados pela regra do teto. Sobram os investimentos privados”, diz Mello, ressalvando, porém, que não é possível afirmar com certeza se esses investimentos serão suficientes para sustentar uma retomada mais robusta.

Oliveira acredita que a saída da recessão virá primeiro pela retomada dos investimentos. Depois disso, os indicadores deverão mostrar uma melhora nos níveis de produção da indústria, para em seguida dar uma guinada no consumo, ainda que de forma modesta.

“O driver (condutor) da recuperação tem que ser o investimento em infraestrutura e o aumento da produção de bens de capital [máquinas e equipamentos], que tem reflexos diretos na indústria”, explica o economista. “Quando isso acontecer, significa que alguém está investindo e em algum momento isso deve impactar na produção e no consumo”, acrescenta.

Santos afirma que já vê sinais de recuperação na indústria. “Começa devagar a tirar a cabeça de dentro d’água, mas isso vai demorar”. O professor destaca também que o setor de serviços costuma ter uma recuperação muito rápida após uma crise.

Crise internacional

Mello aponta que a retomada do crescimento brasileiro depende não só do cenário interno, mas da estabilização do cenário internacional, atualmente conturbado. Incertezas sobre quando haverá um aumento de juros nos Estados Unidos e as consequências econômicas da saída do Reino Unido da União Européia aumentam as incertezas.

“Para dar certo, China, Estados Unidos e Europa têm que continuar crescendo em taxas positivas sem diminuir o ritmo”, diz. Ele acrescenta que vários fatores de instabilidade podem agravar as condições para a economia voltar a crescer. “O [candidato às eleições norte-americanas Donald] Trump pode ganhar as eleições, os Estados Unidos podem decidir aumentar a taxa de juros logo mais”, exemplifica.

Cenário político

Santos aponta que as medidas do ajuste fiscal propostas pelo governo dependem diretamente de um cenário político favorável para que sejam aprovadas pelo Congresso. “Vai ser sempre um problema muito sério. Nenhum político gosta de votar medidas mais duras. As medidas propostas pela equipe econômica são adequadas, mas a aprovação será difícil.”

Mello avalia que o cenário político deve continuar conturbado. “Nós vivemos um momento de instabilidade política que deve prosseguir mesmo após a conclusão do processo de impeachment. Isso porque o governo está dividido em ‘turmas’ que não necessariamente falam a mesma língua, e todas querem ser presidente em 2018. Isso sem falar no chamado ‘baixo clero’ no Congresso que continua vivo, e o governo ainda depende desse ‘centrão’.”

Fonte: G1

MAIS

NOTÍCIAS

SINDIFISCAL/MS