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31/01/2014

Empresários apostam em franquias e têm prejuízos

Nos últimos dois meses, surgiram pelo menos duas associações de ex-franqueados que se sentem lesados por franqueadoras.

No fim do ano passado, foi formalizada a Associação de Defesa dos Franqueados, presidida por Corintho Júnior, e, neste mês, o Sindicato dos Franqueados do Estado de São Paulo, cujo presidente é Jamil Georges Soufia.

As organizações e o número de franqueados insatisfeitos são o reflexo de um crescimento muito grande do setor, segundo o consultor Marcus Rizzo.

A consultoria que leva o nome dele publicou uma pesquisa que aponta que, em dez anos, o total de unidades cresceu 137% e o número de franqueadoras, ou seja, marcas, aumentou 177%.

De acordo com o levantamento, 43% dos franqueadores têm menos de um ano de experiência com a empresa ao lançar a franquia. Isso é problemático porque a ideia deveria ser justamente passar a experiência adquirida a pequenos empreendedores. A situação mais grave, segundo Rizzo, acontece quando as franquias são comercializadas por vendedores que ganham comissões.

Foi um desses que convenceu Márcio Ruiz, 33, a entrar no setor. Ele conta que, em 2012, largou um emprego público para abrir um ponto da Pra Que Marido, prestadora de serviços de reformas e instalações. Segundo o Guia da ABF (Associação Brasileira de Franchising), cada unidade tem um faturamento médio mensal de R$ 80 mil.

Ruiz afirma que o vendedor lhe disse que, em seis meses de operação, ele estaria obtendo lucros de R$ 12 mil. “Foi a maior burrada da minha vida”, diz.

Ele comprou um ponto que já existia -o dono anterior havia desistido do negócio. “No dia em que fui com o vendedor [da franqueadora] visitar a casa, ela estava fechada havia dois meses, mas o telefone da loja tocou, e [o vendedor] fez com que eu atendesse. Conversei com um suposto cliente que pedia um orçamento. Depois, o telefone tocou de novo. Era um pedido para instalar um suporte de TV. Hoje, acho que eram ligações plantadas.”

A operação dele durou oito meses. No melhor momento, o faturamento do ponto foi de R$ 7.000, o que, segundo Ruiz, não cobria as despesas fixas. “Eu tinha um apartamento, mas tive que vendê-lo por R$ 150 mil para saldar dívidas”, afirma. Ele ainda precisa pagar cerca de R$ 50 mil a bancos.

Segundo ele, o problema, essencialmente, era que o serviço não tinha demanda.

“UM TROUXA”

Flavio Andrade Moreira foi franqueado de uma marca chamada Multicanalidade, que faz vendas porta a porta e também pela web.

Ele diz ter investido cerca de R$ 15 mil no começo. Ele comprava produtos da franqueadora e tentava revendê-los -gastou R$ 7.000 em um produto para fazer mechas coloridas em cabelos, por exemplo. Apesar de ter visitado quase 300 salões de cabeleireiro, diz que não conseguiu repassar quase nada.

“Eu ia reclamar com a Multicanalidade e sempre me diziam que a culpa era minha, que eu não tinha o perfil. Quando me tornei franqueado, vi um vídeo do dono em Miami, fiquei orgulhoso. Hoje me lembro disso e me sinto um trouxa, um palhaço.”

O executivo à frente de ambas as marcas é José Carlos Semanzato, que diz que ser franqueado não é uma garantia de sucesso.

“Não somos deuses, não somos Midas. Há fechamento de unidades, mas a gente não vende ilusão no mercado”, afirma. Ele diz que algumas das marcas de seu grupo são relativamente baratas. Por isso, há muitos franqueados e casos como esses acabam acontecendo. No site do grupo de Semanzato, as “franquias de sucesso” são 12. Ele diz que só a sorveteria Jundiá tem cerca de 90 lojas.

No ano passado, o Sebrae apresentou uma pesquisa em que mostra que a mortalidade de pontos de franquias, após dois anos, é de 5%. Para microfranquias, o índice sobe para 15%.

Ângelo Agulha, 52, é doutor e professor de administração. Ex-franqueado da rede de supermercados Dia, conta que deve cerca de R$ 4 milhões a bancos.

Jamil Georges Soufia, 34, o presidente do Sindicato dos Franqueados do Estado de São Paulo, é formado em direito, também teve um ponto do Dia. Hoje, afirma carregar uma dívida de R$ 1,5 milhão.

Ambos dizem que o problema essencial não é falta de demanda, mas, sim, o controle de preços que o Dia mantém. “Eu comprava um litro de leite por R$ 1,95 e vendia por R$ 1,97. Se estourasse um litro de leite em uma caixa, eu precisaria vender 100 litros para pagar um que havia sido perdido”, diz Agulha.

A ideia dessa política de preços é que alguns itens atraem os clientes, que pagam por outros, cuja margem é maior, especialmente os de açougue, padaria, frutas, verduras e legumes. No entanto, para alguns ex-franqueados, eles não tinham saída que compensasse.

Soufia conta que vendeu, por R$ 0,98, latas de cerveja pelas quais tinha desembolsado, ao próprio Dia (que era o fornecedor) R$ 0,99. “Eu estava tão envolvido com o volume de vendas e não parei para ver que estava tendo prejuízos com a operação.”

O Dia, por e-mail, informa que 5% de seus franqueados saíram da rede. No texto, afirma que o “alto índice de casos bem-sucedidos (95%) demonstra que estamos no caminho certo”.

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